Graça... simples assim...

Vida "correta" vs Graça


Diálogo presente no livro "O Grande abismo" de C.S. Lewis

Fantasma - Habitante do "purgatório" ou "inferno"
O diálogo acontece ao encontrar um antigo conhecido que foi para o céu num momento em que o fantasma tem uma chance de redenção...


“O que eu gostaria de entender”, disse o Fantasma, “é o que você está fazendo aqui, todo alegre. Você, um miserável assassino, enquanto eu fiquei andando pelas ruas lá em baixo e vivendo num chiqueiro todos esses anos.”
“É um pouco difícil de compreender no começo. Mas tudo acabou agora. Você vai ficar contente com o que aconteceu afinal. Até lá não precisa preocupar-se.”
“Não preciso me preocupar? Não tem vergonha de dizer isso?”
“Não. Não é como pensa. Não estou pensando em mim mesmo. Eu já desisti disso. Tive de fazê-lo, sabe, depois do homicídio. Foi isso o que ele fez por mim. E foi assim que tudo começou.”
“Pessoalmente”, disse o Grande Fantasma com uma ênfase que contradizia o significado comum da palavra, “Pessoalmente, eu acho que nossos lugares foram trocados. Essa é a minha opinião pessoal.”
“É bem possível que logo aconteça isso”, respondeu o outro. “Se você parar de pensar no assunto.”
“Olhe para mim agora”, falou o Fantasma, batendo no peito (mas as batidas não fizeram ruído algum). “Sempre andei direito. Toda a minha vida. Não digo que fosse religioso ou que não tivesse defeitos, longe disso. Mas fiz o melhor que podia a vida inteira. Fiz o máximo por todo mundo, eu sempre fui assim. Nunca pedi nada a que não tivesse direito. Se queria beber pagava pela bebida e se recebia salário, trabalhava pára isso. Está vendo? Eu era assim e não me importo quem saiba disso.”
“Seria muito melhor não ficar repisando esse assunto agora.”
“Quem está repisando? Não discuto. Estou só lhe dizendo como eu era. Não estou pedindo nada senão os meus direitos. Você pensa que pode me olhar de cima só porque está vestido desse jeito (e não estava quando trabalhava comigo) e eu não passo de um pobretão. Mas tenho de ter os meus direitos do mesmo modo que você, está vendo?“
"O, não. Não é tão mau assim. Não tenho direitos. Caso contrário não estaria aqui. Você também não irá obter os seus. Vai ganhar algo muito melhor. Não tenha medo.”
“É isso que estou dizendo. Não tenho direitos. E sempre fiz o meu melhor e nunca nada errado. E não vejo porque devo ser considerado inferior a um reles assassino como você.”
“Quem disse que vai? Alegre-se e venha comigo.”
“Por que continua falando desse modo? Só estou dizendo como sou. Só quero os meus direitos. Não estou pedindo piedade de ninguém.”
“Então faça justamente isso. Peça piedade. Tudo aqui é recebido quando se pede e nada pode ser comprado.”
“Isso pode ser muito bom para você, tenho certeza. Se eles deixam entrar um miserável homicida só porque ele pede piedade na última hora, isso é problema deles. Mas eu não estou no mesmo barco que você, percebe? Por que deveria? Sou um homem decente e se tivesse os meus direitos já estaria aqui há muito tempo, e pode dizer isso a eles.”
O outro sacudiu a cabeça. “Você não pode agir dessa forma”, ... "E não é exatamente verdade, sabe?” O riso dançou em seus olhos enquanto falava.
“O que não é verdade?” perguntou amuado o Fantasmão.
“Você não foi um homem decente e não fez o seu melhor. Nenhum de nós foi e nenhum de nós fez. Que o Senhor o abençoe, isso não tem importância. Não é preciso falar sobre isso agora.”
“Você?!” gaguejou o Fantasma. “Você tem coragem de dizer que eu não fui um sujeito decente?”
“Claro. Preciso entrar em detalhes? Vou dizer-lhe uma coisa para começar. Assassinar o velho Joaquim não foi a pior coisa que fiz. Isso foi obra de um momento e eu estava meio louco naquela hora. Mas eu matei você em meu coração, deliberadamente, durante anos. Eu costumava ficar acordado à noite, pensando no que faria se tivesse oportunidade. Foi por isso que fui enviado a você agora: para pedir o seu perdão e ser seu servo enquanto precisar de mim, e mais ainda se lhe agradar. Eu era o pior. Mas todos os homens que trabalhavam sob as suas ordens sentiam o mesmo. Você tornava as coisas difíceis para nós. E também fez difícil a vida de sua mulher e seus filhos.”
“Cuide de seus assuntos, meu jovem”, falou o Fantasmão. “Nada de palavrórios, está ouvindo? Porque não vou aceitar nenhum atrevimento da sua parte sobre os meus negócios particulares.”
“Não existem assuntos particulares”, replicou o outro.
“E vou dizer-lhe outra coisa”, falou o Fantasmão. “Pode ir embora, está ouvindo? Ë um indesejável. Posso ser um homem pobre, mas não faço amizade com assassinos, menos ainda aceitar lições deles. Fiz as coisas difíceis para você e os de sua espécie, não é? Se estivéssemos de volta lá, eu lhe mostraria o que é trabalho.”
“Venha e me mostre agora”, respondeu o outro com um riso na voz. “Vai ser gostoso subir as montanhas, mas haverá muito trabalho.”
“Você não está pensando que vou acompanhá-lo?”
“Não recuse. Nunca chegará lá sozinho. E fui enviado a você.”
“Ah! Então é esse o truque, não é?” vociferou o Fantasmão, aparentemente com amargura; mas julguei que havia uma espécie de triunfo na sua voz. Ele fora solicitado, podia recusar, e isso lhe parecia como uma vantagem. “Pensei que devia haver algum disparate. Não passa de uma panelinha nojenta. Diga-lhes que não vou. Prefiro ir para o inferno do que acompanhar você. Vim aqui para conseguir os meus direitos e não para mendigar caridade, amarrado em seu avental. Se eles forem bons demais para ficarem comigo sem você, vou para casa.” Ele estava quase feliz agora por poder, num certo sentido, fazer ameaças. “E isso que farei”, repetiu, “vou para casa. Não vim aqui para ser tratado como um cão. Vou embora. E isso que farei. Para o diabo com todos vocês.
No final, ainda resmungando, mas também choramingando um pouco enquanto escolhia caminho sobre a grama aguçada, ele se foi...

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